05/06/2013
A decisão foi tomada três dias depois da divulgação de uma campanha para combater o preconceito contra profissionais do sexo, que incluía uma peça com os dizeres: "Eu sou feliz sendo prostituta". Elogiado por médicos e especialistas na prevenção de DST-Aids, o material provocou protestos entre a bancada evangélica. Nesta terça-feira, no Congresso, parlamentares pediram explicação sobre o tema.
Padilha mandou, nesta noite, retirar todo material dessa campanha do site do DST-Aids, abrigado no portal do Ministério da Saúde.
Pela manhã, o ministro havia determinado a retirada apenas da peça "Eu sou feliz sendo prostituta". De acordo com ele, o material havia sido veiculado sem passar pelo crivo do departamento de publicidade. Greco estava no cargo desde meados de 2010.
05/06/2013
A amigos íntimos, Eduardo disse que mesmo com muitos pedidos para que ele ficasse na função, o “preço disso seria muito alto”. Eduardo contou que Dirceu saiu “aliviado”, pois a sua honra estava em jogo. O diretor-ajunto afirmou ainda que, assim como Dirceu, não poderia mais ficar no cargo por questões de princípios.
Já o diretor-assistente, Ruy Burgos Filho, anunciou sua saída em reunião interna hoje no Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, informou a assessoria de imprensa do Departamento. Nesta semana, o ministro Padilha recuou.
05/06/2013
A divulgação da campanha ocasionou a exoneração do Diretor do Departamento de Aids, Dirceu Greco, e o pedido de demissão dos diretores-adjuntos Eduardo Barbosa e Rui Burgo.
A Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo e Convivendo com HIV/Aids (RNAJVHA) se diz indignada com as atitudes do governo, que, em sua visão, está pautado pelo neoconservadorismo religioso. Para o grupo, a proibição, aliada à demissão de Dirceu Greco, “ultrapassou a barreira do aceitável pela forma grotesca e truculenta que se deu” e deixa os ativistas em alerta.
A Rede de Jovens reforça ainda que se solidariza profundamente com o movimento das prostitutas e lamenta que no mês do Dia Internacional das Prostitutas, elas tenham que passar por essa situação.
O Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo, por sua vez, lembra que o material vetado foi formulado com a participação das prostitutas, e que a intenção da campanha foi “unir elementos eficazes em qualquer ação de saúde, como o protagonismo e a autovalorização”. Para os ativistas paulistas, houve uma queda na resposta brasileira à aids, havendo maior diálogo no passado, ao passo que hoje a gestão seria caracterizada por atos de truculência e comprometimento com setores retrógrados.
O Fórum, em parceria com outras ONGs, encabeça o protesto “Vai pra casa Padilha”, que manifesta a insatisfação com a gestão de Alexandre Padilha e reclama das ações do ministro.
"Esse Ministro vai entrar para a história como o homem que conseguiu acabar o melhor programa de aids do mundo, erradicando não o HIV, mas sim todas as perspectivas de direitos humanos dos processos da saúde. É mais um retrocesso do governo Dilma no qual a agenda de direitos e de participação social foram trocadas, literalmente, pelos votos dos setores mais conservadores e dos interesses privados ", diz Alessandra Nilo, Secretaria Regional do Conselho Latinoamericano e Caribenho de ONGs AIDS (LACCASO).
Quem também se posicionou favoravelmente à campanha para as prostitutas foi o Programa Estadual de DSTs/Aids de São Paulo. Em nota, a coordenadora do Programa, Maria Clara Gianna, disse que a entidade considera essencial a realização de campanhas de prevenção às DST/Aids voltadas a populações mais vulneráveis, entre elas as profissionais do sexo, pois são uma população com alta prevalência de infecção pelo HIV, comparada à população geral.
”Defendemos políticas públicas pautadas na ética, na promoção da saúde e da cidadania, independentemente de raça, credo, orientação sexual ou escolhas profissionais. Somos uma instituição comprometida com os direitos humanos e os princípios do Sistema Único de Saúde”, diz a nota.
O representante do Movimento de Aids no Conselho Nacional de Saúde, Carlos Alberto Duarte, acredita que a sequência de fatos mostra que o diálogo com o movimento social é agora uma página virada para o Ministério da Saúde. “Isso foi dizer que eles não querem mais o movimento social tentando humanizar o serviço e trazer a perspectiva dos direitos humanos”, opina.
Solidariedade
O Secretário de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Toni Reis, também está indignado com a situação. O ativista prestou sua solidariedade ao ex-diretor Dirceu Greco, dizendo que “a ABGLT e maioria absoluta do movimento de direitos humanos e do Movimento de aids está consternados com situação”.
No texto, Toni elogiou Dirceu por um posicionamento firme na defesa dos direitos humanos.
Jorge Beloqui, do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), também lamentou as circunstâncias que culminaram na demissão de Dirceu Greco. Embora acredite que a gestão do médico infectologista mineiro tenha se afastado do diálogo com a sociedade, ele destaca o maior acesso aos medicamentos e a implantação da Profilaxia pós-exposição sexual (PEP) e do tratamento como prevenção. “Tivemos muitas diferenças nesse tempo, mas é uma pessoa do meu apreço, e, dada a situação, será muito ruim se o Alexandre Padilha sair mesmo como candidato a governador”, disse.
Dimitri Sales, ex-coordenador de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, reforçou, em sua opinião, a adequação da campanha promovida pelo Departamento. Para ele, a exoneração foi assustadora e frustrante e mostra que o jogo de interesses não se manifesta somente no poder Legislativo, mas também no Executivo
Ministério responde
A Agência de Notícias da Aids entrou em contato com a Assessoria de Imprensa do Ministério da Saúde, que informou que por enquanto o único posicionamento da Pasta sobre o assunto é a nota abaixo:
1. As peças expostas no site do Departamento de DST/Aids não passaram por análise e aprovação da Assessoria de Comunicação Social, como ocorre com todas as campanhas do Ministério da Saúde, de todos os departamentos. Logo, o descumprimento das normas previamente estabelecidas pelo Ministério da Saúde justificou a retirada das peças do site do departamento e de seus perfis nas redes sociais e a apuração das responsabilidades.
2. As peças dirigidas a este público, que é prioritário para as ações de DST/Aids, serão disponibilizadas após análise da Assessoria de Comunicação Social.
3. Os produtos foram elaborados por representantes do público-alvo, com acompanhamento da equipe do Departamento de DST/Aids em oficinas de comunicação comunitária, logo sem custos de impressão, distribuição e veiculação.
4. Na definição de suas políticas de saúde e de comunicação, o Ministério da Saúde continuará mantendo espaços permanentes de diálogo com os movimentos sociais, sociedades científicas, associações profissionais e demais atores da saúde.
Sobre a campanha “Vai pra Casa, Padilha”, a assessoria informa que a equipe destinada às redes sociais irá analisar e, caso julgue necessário responder, fará um novo posicionamento.
Nana Soares
